Sabe aqueles rabiscos de telefone? Aqueles desenhos e palavras que simplesmente são passados para o papel quando sua mente divaga ao falar com alguém, que parecem até psicografados. Pois então, criei esse espaço justamente para isso, jogar aqui os pensamentos, ideias e conteúdos que surgem a esmo nesta minha mente confusa e ver se aparece algo que preste. Veremos...
domingo, 27 de novembro de 2011
Dos travesseiros e da vida
Ela acordou naquele dia com a mesma sensação de dias anteriores. Algo a estava incomodando. Algo não a deixava dormir direito. Ela sabia o que era. Sempre soube. Mas pelo apego emocional, os anos de convivência em que compartilharam sonhos e pesadelos, juntos, lado a lado, ela hesitava em tomar uma atitude. Porém hoje havia sido a gota d'água. Após muito pensar e maturar a decisão, sem que ele sequer imaginasse, estava decidido: os dias estavam contados para o seu travesseiro!
Sim, era o certo a se fazer, afinal ele era tão desgraçado em sua perfeição, tinha o formato perfeito para sua cabeça, acomodava o seu pescoço sempre no mesmo lugar, tinha a maciez exata para o seu relaxamento e o pior, pasme, tinha o seu cheirinho. Sim, em tempo integral o maldito travesseiro exalava o cheirinho característico do sono dela.
Isso não podia continuar. Ela já estava ficando louca. Esse maldito travesseiro tinha que sumir.
A menina então foi atrás de catálogos, pesquisou na internet, lojas especializadas uma variedade de novos travesseiros milagrosos, com infra-vermelho, raios laser e que previnem o câncer na medula.
Não conseguia se decidir. Não conseguia encontrar. Estava quase desistindo e resignando-se de que aquele maldito travesseiro que tanto a incomodava seria seu encosto de cabeça para sempre, como uma maldição lançada por uma madrasta de conto de fadas.
Até que um dia ao passar correndo pela Dr. Flores, como fazia quase todos os dias a caminho do trabalho, ela avistou o cartaz de um travesseiro na vitrine de uma loja. Ela não soube o porquê, mas aquele travesseiro chamou tanto a sua atenção que quase inconscientemente ela entrou na loja.
- Em que posso lhe ajudar?
- O travesseiro. O do cartaz. O da vitrine.
Então a moça lhe trouxe o tal travesseiro. Uma maravilha da tecnologia.
Um travesseiro fantástico feito de material tão resistente que não deformava, e desta forma não poderia adquirir o formato da sua cabeça nem criar um aconchego para o seu pescoço.
Um material tão duradouro que sua consistência seria sempre a mesma, não adquirindo assim a maciez dos travesseiros mais rodados.
E o principal, era um travesseiro 100% odor free. SIM! Suas preces foram atendidas! Nunca, mas nunca mesmo, nem que ela pedisse um milagre aos deuses do sono, esse travesseiro teria o seu cheiro.
Com o coração na garganta de tanta emoção ela disse: - Vou levar!
Estava resolvido. Todos os problemas de sua vida estavam resolvidos!
Ela estava eufórica! Tanto que ligou para o trabalho e disse que estava doente, que não poderia ir trabalhar. E voltou voando para casa. Em casa foi direto ao quarto. Olhou para sua cama desarrumada e para o maldito. Toda a vida a que tiveram juntos passou em frente ao seus olhos em uma questão de segundos, como dizem que acontece quando a gente enfrenta a morte de frente.
Ela se lembrou de todos os momentos bons que tiveram e então o pegou pela orelha e o jogou no canto do quarto. No chão.
Colocou o novo preferido na cama. Deitou. E dormiu com um sorriso nos lábios.
Ao acordar se sentiu um pouco estranha, incomodada até, mas com certeza era o estranhamento natural que sente-se frente ao novo. Logo passaria. E ela voltaria a ser feliz.
E assim os dias foram se passando. O tempo raramente volta. Ou nunca.
Ela a dormir com seu travesseiro novo. Anatômico, antiodores, antideformidades, indefectível.
Frio.
Algo a incomodava. Era estranho. O novo travesseiro era a perfeição dos projetistas de travesseiros. Aquele que todo mundo quer ter. E ela não estava feliz com ele? Como podia? O que estava acontecendo com ela?
Mais o tempo passava. Mais aquilo a incomodava.
Ela acordou naquele dia com a mesma sensação de dias anteriores. Algo a estava incomodando. Algo não a deixava dormir direito. Ela sabia o que era. Sempre soube. Mas pelo preço que pagou, e não estamos falando de dinheiro, os anos de convivência e compartilhamento de sonhos e pesadelos jogados fora, ela hesitava em tomar uma atitude. Porém hoje havia sido a gota d'água. Após muito pensar e maturar a decisão, sem que ele sequer imaginasse, estava decidido: os dias estavam contados para o seu novo travesseiro!
- Mãe, tu sabe onde está meu travesseiro antigo?
- Ué, minha filha, joguei fora.
- Como assim, mãe?! Por quê?!!
- Como por quê? Estava lá, jogado no canto, enchendo de poeira. Joguei fora.
Ela ficou muda e saiu.
Como poderia ter feito aquilo? Mas estava feito.
Passaram-se alguns dias e ela jogou fora o novo travesseiro. E comprou após este alguns outros. Nenhum que consiga dar o que ela precisa.
Hoje ela procura por aí, desiludida, um travesseiro que se encaixe ao formato de sua cabeça, que aconchegue o seu pescoço, que seja macio como deve ser e que tenha o seu cheirinho, o que é difícil nos dias de hoje onde todos são anatômicos, antiodores, antideformidades, indefectíveis, engessados.
Frios.
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